segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Kékeré: o Grupo de Pesquisa que fundamenta esta pesquisa

O Grupo de Pesquisa Kékeré (palavra que, em iorubá, significa miúdo ou pequeno) é coordenado pela professora Stela Guedes Caputo e está vinculado à Linha de Pesquisa Infância, Juventude e Educação, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEd-Uerj). 

A partir dos estudos com crianças de terreiros e da elaboração de um caminho denominado Reparar Miúdo e Narrar Kékeré, o Grupo de Pesquisa criou a Fotoetnografia Miúda, uma etnografia que tem o seu fundamento na produção dialógica com crianças de imagens (estáticas ou em movimento) desestabilizadoras. 

Na pesquisa que aqui se estrutura, a sofisticação e a complexidade da relação criança-terreiro é proposta para a relação criança-rio, na exúrica encruzilhada de infâncias que não foram reduzidas ao projeto de morte (necropolítico) e seguem fazendo a festa de semente e a festa do presente.


Confira o canal do Kékeré no YouTube clicando aqui.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Manoel de Barros: inspiração poética desta pesquisa


“Três personagens me ajudaram a compor estas memórias. Quero dar ciência delas. Uma, a criança; dois, os passarinhos; três, os andarilhos. A criança me deu a semente da palavra. Os passarinhos me deram desprendimento das coisas da terra. E os andarilhos, a pré-ciência da natureza de Deus. Quero falar primeiro dos andarilhos, do uso em primeiro lugar que eles faziam da ignorância. Sempre eles sabiam tudo sobre o nada. E ainda multiplicavam o nada por zero – o que lhes dava uma linguagem de chão. Para nunca saber onde chegavam. E para chegar sempre de surpresa. Eles não afundavam estradas, mas inventavam caminhos. Essa a pré-ciência que sempre vi nos andarilhos. Eles me ensinaram a amar a natureza. Bem que eu pude prever que os que fogem da natureza um dia voltam para ela. Aprendi com os passarinhos a liberdade. Eles dominam o mais leve sem precisar ter motor nas costas. E são livres para pousar em qualquer tempo nos lírios ou nas pedras – sem se machucarem. E aprendi com eles ser disponível para sonhar. O outro parceiro de sempre foi a criança que me escreve. Os pássaros, os andarilhos e a criança em mim são meus colaboradores destas Memórias inventadas e doadores de suas fontes” (“Fontes”, de Manoel de Barros). 

Buscar as fontes é o que nos cabe para inventar caminhos possíveis e pousar livre em qualquer tempo nos lírios ou nas pedras, como anuncia o poeta mato-grossense Manoel de Barros. A aparente contradição de sua invenção de memórias, isto é, de duas buscas que sinalizam, ao mesmo tempo, o futuro e o passado é uma inspiração para a pesquisa que pretendo desenvolver. Isso porque problematiza o lugar da memória, que transcende o marco cronológico e passa a instaurar uma temporalidade não numerável nem sucessiva, mas intensiva e qualitativa, com abertura às formas de vida que não estão sendo afirmadas no mundo que habitamos. As memórias inventadas da infância de Manoel de Barros, e o conjunto de sua obra, são uma das fontes que abastecem esta pesquisa. 

Outubro: Mês das Crianças Ribeirinhas


Outubro é o mês do rio São Francisco (dia 4) e das crianças (dia 12). Em homenagem às crianças ribeirinhas e a todas que seguem nas margens alargando a concepção em curso de infância, partilhamos o vídeo “Laysa Dandara: O Movimento Perpétuo na Arquitetura da Água”. O curta foi feito por Luis Osete, como atividade de uma disciplina ministrada pela coordenadora do Kékeré, Stela Caputo, com base nas fotografias e depoimento da fotógrafa pernambucana Laysa Dandara. Um ótimo mergulho pra vocês. Viva as nossas crianças! 

O vídeo também pode ser visto em meu canal no YouTube: https://youtu.be/Sags3CCgl2U

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

As quatro estações das infâncias ribeirinhas: Como produzir audiovisualidades em mergulhos etnográficos com crianças?

Autoria da foto: Luis Osete

É o título da minha proposta de pesquisa no Doutorado em Educação do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEd/Uerj). 

O meu projeto surge para contrariar a dupla negação constatada por Stela Caputo (2018): a que considera os cotidianos como lugares de reprodução de saberes menores e a que invisibiliza as crianças no campo de pesquisa, negando-as a oportunidade de contribuir com o conhecimento científico. 

A partir da inversão dessa lógica acadêmica dominante, a pesquisa que aqui se esboça está ancorada nas possibilidades abertas pela Fotoetnografia Miúda, uma cosmopercerção que aciona todos os sentidos para a produção dialógica com crianças de imagens (estáticas ou em movimento) desestabilizadoras. 

Ao intercambiar as noções de redes educativas (ALVES, 2008) e cultura de pares (CORSARO, 2011), terreirizando a espisteme nas interlocuções, a Fotoetnografia Miúda tem a potência geradora de contribuir na compreensão e na elaboração de tessituras audiovisuais em mergulhos etnográficos com crianças. 

No caso desta pesquisa, a força semeadora de produzir novas correntezas na Fotoetnografia Miúda será elaborada na interlocução com crianças que habitam as margens multicores do rio São Francisco. 

Diário das Águas: inundação de sensibilidades

"Escrever é mariscar palavras-peixes que beliscam nosso anzol", escreve Gabriela Romeu no posfácio do livro Diário das Águas, de s...