segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Trinh T. Minh-ha: inspiração na linguagem cinematográfica


Uma importante inspiração ética e estética é o trabalho da cineasta e intelectual vietnamita, radicada nos Estados Unidos, Trinh T. Minh-ha

Em obras que provocam as fronteiras entre a arte e a ciência, transitando entre o documentário, o filme etnográfico, o cinema experimental e o cinema narrativo, Minh-ha assume, a partir de escolhas estéticas, uma postura ética que questiona os discursos elaborados para marcar e referendar lugares de autoridade e poder. 

A ênfase de suas produções é pautada pela revelação de que a audiovisualidade é uma construção de discurso resultante de uma opção deliberada. E, para demonstrar o modo como a obra se constrói, Trinh T. Minh-ha opta por uma estética comprometida com o desvelamento das relações de poder e de exploração subsumidas nos discursos hegemônicos da colonialidade. 

Em “Reassemblage - from the firelight to the screen” (1983), por exemplo, é recorrente a reação dos sujeitos retratados, que devolvem seus olhares e seus sorrisos, sua desconfiança e sua permissão, permitindo a quem assiste perceber diversos momentos da relação estabelecida entre a cineasta e as pessoas filmadas. “Eu não pretendo falar sobre. Apenas falar próximo”, diz a cineasta no filme supracitado. 

Além disso, as paisagens sonoras do documentário, construídas na junção de instrumentos musicais, cantos, conversações, sons de insetos e batidas no pilão, não são utilizadas em sincronia com as imagens dessas ações e, unidas aos recorrentes momentos de silêncios, provocam estranhamento e desestabilizam as expectativas típicas das narrativas convencionais. 



segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Lendas do Velho Chico


O Nego D'água. Foto: Luis Osete.  

No universo das lendas ribeirinhas, que alimentam o imaginário local de histórias eivadas de lições morais, ensinamentos e modelações de condutas e vivências, a tradição oral mostra ainda a sua força inexorável. 

Entre os seres que mais se destacam nos territórios aqui evidenciados, estão: 

O Nego D’água, representado como um homem negro, careca e com mãos e pés de pato, que, quando contrariado, derruba a canoa dos pescadores, fura redes de pesca e assusta as pessoas; 

O Minhocão, um enorme surubim sem barbatanas, também responsabilizado pelos naufrágios de barcas, ataques e até mesmo o sumiço de pescadores e viajantes; 

A Mãe D’água ou Iara, metade mulher e metade peixe, que vem à tona à meia-noite, quando o rio dorme, para pentear seus longos cabelos em alguma barca disponível. 

Todos esses seres necessitam de oferendas para manter o rio em equilíbrio e garantir a continuidade da vida.

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Euvaldo Macedo Filho: Poeta das Luzes Ribeirinhas

Foto de Euvaldo Macedo Filho. Fonte: Acervo de Euvaldo na internet.

Euvaldo Macedo Filho foi um poeta, fotógrafo, cineasta, compositor e agitador cultural, nascido em 1952 e falecido em 1982, em Juazeiro (BA). Após curta temporada de estudos em Salvador, passou a se dedicar quase que integralmente à poesia e à fotografia, a partir da metade dos anos 1970, quando retorna a sua cidade natal. Em Juazeiro, participou dos grupos artísticos locais, como o Grupo Êxodus e o Círculo de Convivência Cultural, os quais impulsionavam a produção artística em diversas linguagens, como a poesia, o teatro e a música.

Ao incorporar as temáticas sociais do fotojornalismo, Euvaldo Macedo as mesclava com sua admiração pela arte e pela literatura modernas, e com seu fascínio antropológico pelos personagens populares do sertão, suas festas, práticas religiosas, brincadeiras infantis, viagens a vapor. Assim, seu trabalho fotográfico se constituiu especialmente a partir de sucessivas viagens pelo rio São Francisco e pelo Oeste baiano, por cidadezinhas do sertão da Bahia, de Pernambuco, da Paraíba, do Ceará e do Piauí, compondo um leque abrangente de paisagens que se transformavam com a chegada da eletricidade, da televisão e das estradas.   

O Projeto Acervo Euvaldo Macedo Filho procurou respeitar e tornar visível esse aspecto multifacetado do artista e de sua obra, ao recuperar desde as mínimas notas de trabalho do artista até às fotos publicadas ou expostas, e cujo acesso foi possibilitado. Entretanto, a maior parte do material disponibilizado para visualização no website é inédita, inclusive para o fotógrafo – considerando a brevidade de sua vida – o que confere ainda mais valor a essa produção artística.


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Ilha do Massangano: encruzilhada de águas


Foto: Laysa Dandara


Distante cerca de 20 quilômetros dos centros urbanos das cidades de Juazeiro e Petrolina, a Ilha do Massangano está situada em uma encruzilhada de águas. 


Sobre as forças das águas do rio correm ali diversas correntezas: “algumas qualidades de espíritos mais afeitos às águas, em especial os ‘caboclos’ – seres que, junto às ‘almas’, estão sempre a caminhar ‘mais eles’”. 


Por lá, as celebrações são como as estações mundurukus, que se dobram e se renovam. O calendário é aberto com o giro do Reisado em janeiro e segue com a festa da Caboclinha Coroada do Rio, a Penitência (Disciplinadores e Alimentadeiras das Almas) e as festas de Santo Antônio e de Cosme e Damião. 


As crianças participam ativamente de cada celebração e o único cemitério da Ilha, o “cemitério dos anjinhos ou das alminhas”, é reservado apenas para elas. Mesmo assim, as etnografias que têm o Massangano como espaço de pesquisa seguem sem vê-las e escutá-las.


Portanto, nesta proposta de emersão dos sentidos das crianças massanganas, reconhecendo a força integradora e produtora da comunidade, há uma inversão de sentidos das abordagens dominantes no campo etnográfico que tematizam a Ilha.

Diário das Águas: inundação de sensibilidades

"Escrever é mariscar palavras-peixes que beliscam nosso anzol", escreve Gabriela Romeu no posfácio do livro Diário das Águas, de s...